terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

DIA DOS NAMORADOS


O Dia dos namorados está aí, mas se esta "moda" foi importada , outros hábitos relacionados com os namorados fazem parte da cultura portuguesa mais tradicional , sobretudo em algumas zonas do país. Estamos a falar, por exemplo, da tradição dos "Lenços dos Namorados".

Para além destes lenços constituírem parte integrante do trajo do Minho eles eram também usados no Douro Litoral, Trás-os-Montes, Beira Alta, Estremadura, Alentejo e Açores.

" Os lenços de namorados" constituíam a um dado momento uma prova da declaração feita pela bordadeira ao seu namorado e na maior parte dos casos esta declaração era atendida e o conversado comprometia-se, também, publicamente nesta ligação usando o lenço por cima do seu casaco domingueiro, colocado ao pescoço com o nó voltado para a frente.

Caso a rapariga não fosse correspondida o lenço voltaria às suas mãos. Se o namorado trocasse de parceira fazia chegar à sua antiga pretendida o lenço, fazendo-o acompanhar de todos os objectos que daquela possuía: fotografias, cartas, etc.

Outras vezes os lenços eram motivo duma simples brincadeira ou troca de palavras. Nas festas os rapazes tiravam os lenços das raparigas simulando uma ligação amorosa. Quando o rapaz já tinha namorada o facto de simular uma ligação com outra ao roubar-lhe o lenço era muitas vezes motivo de desavença entre a sua namorada e aquela a quem o lenço tinha sido roubado.

O lenço no rapaz para além de ser usado por cima do casaco domingueiro podia, também, ser usado na aba do chapéu ou até mesmo na ponta do pau que era costume o rapaz trazer consigo.

Quando eram utilizados pelas suas “donas” no seu trajo de festa, estes eram colocados do lado direito da cintura, deixando pender uma das pontas, dando assim à sua indumentária uma graciosidade particular.

Os lenços traduzem os mais variados sentimentos duma rapariga em idade de casar, quer manifestados através dos símbolos que se prendem com a fidelidade, quer através de símbolos religiosos que referem o acto específico do casamento, ou ainda através de quadras de gosto popular, que na maior parte dos casos denunciam a ignorância ortográfica da bordadeira, pois facilmente nos deparamos com erros ortográficos dos mais variados.

Tudo era feito em função da fantasia das fantasias - o Amor - e ele de facto parece ser a causa directa desta rica e exuberante manifestação artesanal.

Para completar esta informação encontram-se expostos na Biblioteca alguns "lenços dos namorados.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

CARNAVAL

Muitas são as teorias e opiniões sobre a origem do Carnaval. Mas numa ideia todas elas convergem: a transgressão, o corpo, o prazer, a carne, a festa, a dança, a música, a arte, a celebração, a inversão de papéis, as cores e a alegria, fazem parte da matriz genética de uma das manifestações populares mais belas do Mundo.
Provavelmente terá tido origem no Antigo Egipto, ou mesmo muito antes. Frequentemente, foi alvo da repressão de quem não tolerava a subversão de um mundo virado do avesso. A opinião de autores e historiadores sobre o Carnaval não é unânime tanto em relação à data do seu surgimento como em relação à origem da própria palavra «Carnaval».

Há efectivamente duas correntes distintas na abordagem da origem da palavra e que se baseiam em duas oposições hoje presentes nas celebrações do Carnaval. A primeira é a oposição entre a ordem e a desordem, entre o mundo visível e quotidiano e os impulsos inconscientes, entre a representação e a vontade, entre o mundo que vemos e o mundo visto de cabeça para baixo. Nesta linha, a palavra «Carnaval» teria a sua origem no vocábulo latino Carrum Navalis, os carros navais que faziam a abertura das Dionísias Gregas nos séculos VII e VI a.C., e onde a euforia e a inversão de valores se estendiam pelas ruas das cidades. A segunda oposição, com origem marcadamente cristã, é entre o Carnaval e a Quaresma, ou entre a terça-feira de Carnaval e a Quarta-feira de Cinzas (que marca a entrada no período da Quaresma). A palavra terá surgido quando Gregório I, o Grande, em 590 d.C. transferiu o início da Quaresma para quarta-feira, antes do sexto domingo que precede a Páscoa. Ao domingo anterior deu o título de dominica ad carne levandas, expressão que se teria sucessivamente abreviado para carne levandas, carne levale, carne levamen, carneval e carnaval e que significam acção de tirar, quer dizer: "tirar a carne", ou "adeus à carne". A terça-feira, seria legitimamente a noite do Carnaval. Seria, em última análise, a permissão de se comer carne antes dos 40 dias de jejum (Quaresma).
Durante o período do Carnaval havia uma grande concentração de festejos populares. Cada cidade brincava a seu modo, de acordo com seus costumes.
Independentemente da origem da palavra, as manifestações carnavalescas de hoje não são novas nas suas formas e conteúdos, antes se constituiem como produto da sociedade vitoriana do século XIX.

O Carnaval continua a ser particularmente festejado em algumas cidades, das quais destacamos Veneza, Colónia e Munique, New Orleans e Rio de Janeiro. Sucessivamente, iremos partilhar convosco estes festejos, dando a conhecer a sua realidade.

Hoje, vamos falar do Carnaval de Veneza, provavelmente um dos mais famosos e, seguramente, o mais belo.
Veneza é uma cidade maravilhosa, bem no centro do coração de Itália, famosa pelas suas paisagens, as suas gôndolas e os seus bailes de carnaval.

As máscaras do carnaval de Veneza são famosas em todo o mundo pelo detalhe, pela beleza na elaboração e pela riqueza com que são apresentadas.
Outrora, as máscaras permitiam a quebra das barreiras sociais e os ricos podiam aproximar-se dos pobres sem serem socialmente condenados ou comprometidos. O facto é que de tudo isso restaram as festas carnavalescas que proliferam em toda a cidade e que se têm modernizado com o passar do tempo, mas as máscaras permanecem quais fantasias coloridas.

Commedia dell'arte - conhecida também como Comédia de Máscaras - era composta por espectáculos teatrais em prosa, muito populares na Itália e em toda a Europa na segunda metade do século XVI até meados do século XVIII. O espectáculo era baseado no improviso dos actores, que seguiam apenas um esquema elaborado pelo autor para cada cena cómica, trágica ou tragicómica.
Hoje em dia o carnaval veneziano está muito mais moderno mas conserva a tradição do uso de máscaras maravilhosas, confeccionadas manualmente, que embelezam os bailes e trazem aquele glamour que, juntamente com o cenário de Veneza, tornam o seu carnaval inesquecível.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

O ANIVERSARIANTE DO MÊS

A Biblioteca José Ferreira Brandão não podia deixar de se associar às comemorações dos 200 anos do nascimento de Charles Darwin (12 de Fevereiro) e dos 150 anos de publicação do seu livro A Origem das Espécies, que decorrerão em 2009. E começa já por o escolher para Aniversariante do Mês, elegendo também como livro do mês a obra publicada pela Gradiva e que constitui a mais perfeita introdução ao pensamento de "Darwin - A Origem das Espécies de Darwin - Uma Biografia" da autoria da sua principal biógrafa – Janet Browne .

Charles Darwin foi, sem dúvida, um dos mais importantes pensadores de todos os tempos. E um dos livros que mais alterou o entendimento que as pessoas têm de si próprias foi precisamente o seu A Origem das Espécies. Publicado em 1859, causou sensação mal foi editado e nunca deixou de gerar controvérsia e perplexidade. A ideia de que os seres vivos evoluem gradualmente através de selecção natural chocou profundamente os leitores vitorianos, pondo em causa aquela que era, para muitos, no quadro da visão e da vivência religiosa da época, a inabalável crença na existência de um Criador.
A propósito destas comemorações não percam a exposição patente na Fundação Calouste Gulbenkian, de 12 de Fevereiro a 24 de Maio. Para saberem mais dêem uma espreitadela aqui.
Como curiosidade partilhamos convosco a primeira capa do livro:

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Mozart, o Menino Mágico

O Mês de Janeiro está a acabar. É, portanto, altura de nos despedirmos do nosso aniversariante. Nada melhor do que partilharmos convosco uma pequena história escrita por José Jorge Letria sobre Mozart.
"Havia um cravo no meio do quarto e uma janela a dar para a rua. O cravo não era uma flor e sim um instrumento polido, elegante, bonito, capaz de fazer música, de encher os dias com o som suave das suas teclas brancas e negras, com a alegria dos seus acordes, das suas harmonias leves e limpas como a voz do vento. O menino levantou-se do chão, sentou-se no banco almofadado e pousou as mãos pequeninas sobre as teclas. Que música ia nascer dos seus dedos saltitantes como pássaros contentes com a chegada da Primavera? Atrás do menino havia um vulto e atrás do vulto uma luz igual à que cobre as telas dos pintores. O menino gostava da luz e o seu sorriso de menino feliz era já uma espécie de música a enfeitar a vida da casa.“Amadeu”, — disse a voz atrás do menino —, “hoje tens ainda muito trabalho pela frente, dois minutos para estudar, uma longa lição para aprender.” O menino gostava que soubessem que, para ele, tocar era uma maneira de brincar e que o cravo, o piano e o violino bem podiam tomar o lugar dos cavalos de pau, dos soldadinhos de chumbo, das máscaras de cartão. Um dia o menino desenhou a giz um rosto no chão, uma andorinha no tapete persa, uma borboleta na tampa do cravo. Depois inventou letras gémeas dos algarismos e das notas de música e deu nomes raros às melodias que lhe esvoaçavam na cabeça, roubando-lhe o sono e o sossego. Os dedos do menino saltavam, nervosos, de tecla para tecla, de música para música. O vulto, atrás do menino, era familiar e meigo. Chamava-lhe Pai, queria-lhe muito. À frente, num trono alto, um homem enfeitado de ouro ouvia, atento, a música que nascia dos dedos pequenos do menino. Chamavam-lhe Imperador e era senhor de uma cidade luminosa chamada Viena. Gostou do que ouviu e disse: “Há-de ir longe, muito longe este menino”. Não se enganava, o Imperador. O menino não gostava de castigos, de notas desafinadas, de ralhetes, de sons de trompete. Amava a doçura do cravo e a voz alta e sonante do piano. Queria tocar com os dedos pequeninos o horizonte da música. Não lhe faltava nem vontade, nem saber, nem engenho. Era um menino mágico igual aos dos sonhos e das lendas.Um dia o menino faz as malas, guarda nelas, bem guardados, os brinquedos e as partituras, pega na mão da irmã, na mão do pai, nas rédeas do vento e lança-se na lonjura dos caminhos. Hoje Munique, amanhã Paris, depois Bruxelas e Coblenz, mais adiante Londres e Frankfurt. O menino aprende os nomes das cidades e das gentes que se deixam assombrar em salas brilhantes e grandes com o som da música que nasce, irrequieta, dos seus dedos.“Chegou o dia”, diz o pai do menino, “de mostrares as tuas sinfonias”. O menino achava que era ainda cedo, mas gostava de obedecer à vontade do pai. Escreveu no caderno de viagem os nomes de Bach e de Haendel e da música de ambos fez companhia fiel para concertos e andanças. A música era agora o seu único brinquedo, a festa dos seus dedos pequeninos e velozes sobre as teclas brancas e negras. Rendem-se as cidades à magia dos seus dedos que inventam trios e sinfonias como cascatas de som. Hoje Haia, amanhã Paris, depois Milão, de novo Londres e Munique. O menino está doente e cansado. Chamam-lhe prodígio, menino-prodígio, e ele não gosta. Prefere que lhe chamem apenas menino, ou então Wolfgang Amadeus, Amadeu para os amigos que com ele partilham a viagem destes versos. O menino gosta de fazer amigos. Florença é uma cidade bonita, clara e cantante, com praças, igrejas e mercados. Um outro menino com dedos mágicos como os seus toca violino e gosta de brincar. Chama-se Tomás e tem olhos azuis. A música os junta, a música os separa.Cada um segue o seu rumo, que as estradas de fazer amigos nem sempre são iguais às de fazer música. Em Roma há quem diga: “Uma grandeza assim só em Miguel Angelo”. O menino não sabe quem seja, se é músico ou pintor, mas pressente que é alguém tão alto e brilhante como as catedrais do mundo na hora fantástica em que todos os sinos chamam para a festa. O menino tem nos ouvidos o eco imenso dos aplausos. Que lhe dêem, doravante, tudo menos silêncio e escuridão. O menino não gosta de usar cabeleira postiça, casaca bordada a ouro, pó na face. Mas que há-de fazer? Toca nos salões, nas salas de concerto para gente rica e exigente e só lhe resta seguir a moda, respeitar o gosto de quem manda. Ninguém espera que ria, que brinque, que salte e que corra. Mas ele, às vezes, lembra-se que ainda é menino e em vez de música deixa uma pirueta, uma careta na lembrança de cardeais e de duques. O menino também sabe cantar com uma voz fina e perfeita que enche as capelas e os salões. Canta um Miserere e Roma fica de joelhos a adorar nele uma santidade que não tem, uma realeza que não quer ter. Ele é somente um menino, um menino de músicas mágicas, mas ainda e sempre um menino. Às vezes o menino sonha que tem altura de estátua, largura de rio, tamanho de onda. Depois acorda em sobressalto e sobra-lhe do sonho que teve uma réstia de som, um farrapo de música, um ímpeto de sinfonia. O menino descobre que cresce ao ritmo dos sonhos que de noite e de dia o visitam, à velocidade luminosa dos astros. O menino acrescenta palavras à música, dá voz a personagens, dá corpo a reis e a mitos, dá nome a cidades e a séculos. Tem catorze anos e escreve uma ópera. Depois escreve uma cantata para casar um arquiduque. Dá nomes às óperas: Mitridate, Lúcio Silla, Finta Giardiniera. O mundo é um tapete de espantos e vénias que se desenrola a seus pés. O triunfo é um pássaro que lhe cabe na concha da mão. Mas apetece-lhe ser sempre menino. Para sempre menino, como se pudesse ser esse o seu destino. O menino está em Paris, mas pertence a todas as cidades que amam a sua música, que cantam na voz das suas óperas e cantatas. Paris abre-lhe portas que a tristeza se apressa a fechar. Parte a mãe para um lugar aonde não chega, nunca chegará, o som da sua música. O menino está só e infeliz. Sente-se indefeso como todos os meninos. Volta a casa e chora, dobrado como um menino triste, no colo do pai que o consola. O menino sonha com uma flauta que seja mágica, com uma música que seja diferente. Usa a língua italiana nas primeiras óperas e a língua alemã, a que entra no que diz e no que escreve, para escrever outras a que chama: Flauta Mágica, O Rapto do Serralho. Todas lhe exaltam a mão esquerda, a mágica mão que dança sobre as teclas como uma bailarina com véus de sonho e de brisa. Há um vulto ao lado do menino, que não é o de seu pai, nem o de um anjo protector. É um vulto que se escreve com nome de música. Chama-se Joseph Hayden e diz: “Compositor maior, senhores, nunca eu vi ou ouvi”. O menino torna-se gigante na admiração e no afecto dos que oouvem tocar. É um menino gigante com um riso alegre e sonoro como é sempre o riso dos meninos quando a música os faz felizes.O menino é pálido, magro, doente. Mesmo quando a febre e a fadiga o levam à cama, não deixa de compor, de escrever, de inventar sinfonias e concertos, de mandar cartas, de endereçar mensagens. Não sabe nem quer parar. Não é capaz. Há nos seus olhos uma luz que não se apaga e que o faz ter sempre rosto de menino, idade de menino, gestos de quem ainda deixou muito para brincar.As mãos do menino cantam, dançam, inventam. São mágicas como o riso do menino. Quando se erguem no ar, fazem crescer a força da música que acorda as cidades, de Salzburgo, onde nasceu, até Milão, Paris ou Londres, que não se cansam de dizer: “Como tu nunca vimos igual”. Mas o menino sente que o elogio é coisa incómoda, de feição só para gente idosa. Dá uma gargalhada e nasce uma nova sinfonia. As mãos do menino esbanjam o dinheiro que ganham com pequenas e grandes coisas, com festas e com surpresas, presentes e brindes. O menino é generoso e gosta de ser amado. Só se sente feliz quando, à sua beira, os outros também são felizes. É essa, afinal, a lei de ouro da sua música. O menino sabe que a harmonia do mundo começa e acaba na sua música. Fora dela é a desordem, a tristeza, a doença. Façam-lhe tudo menos estragar, ofuscar a luz da sua música.Vê-lo-ão em fúria, com mãos ameaçadoras e palavras altas e graves, se lhe maltratarem uma sinfonia, uma cantata, uma ópera. O menino esquece-se do tempo. A música acena-lhe de dentro da noite, chama alto por ele. E ele perde o sentido das horas, deixa escapar por entre os dedos o fio do tempo. Compõe, compõe sempre, com uma pressa só igual à de quem corre contra o tempo por saber que já não tem tempo. Dorme sem ter horas, escreve sem ter fome ou sede, inventa-se e reinventa-se no muito que faz como se lhe restassem poucos dias para o fazer, para o sonhar. Engana-se quem o festeja, quem o quer adulado e adorado. Para ele só a música conta e a ternura dos que ama, a da mulher, do pai, dos amigos. A música não é uma casa, nem uma estrada, nem uma lua acesa a medo no escuro da noite. A música é um universo povoado por cometas, planetas e sóis de mil e uma cores. E ele é o único habitante capaz de pôr ordem nesse universo, de lhe dar harmonia, sentido e voz. Há quem não goste que o menino toque de igual modo para os que tudo têm e para os que são donos de nada. Para uns querem brilho, para outros silêncio apenas. Mas o menino não faz distinção entre uns e outros. Para ele há os que sabem e os que não sabem ouvir. No meio está uma espiral de sons, de notas mágicas, que cresce com os sonhos do menino. O menino tem já a idade das sinfonias e das óperas que compôs. Cresceu, mas não deixou de ser menino. Acorda quando o dia acorda e passeia pela casa arejada e branca as ideias novas, as melodias cantantes, os fragmentos de música que depois vão salpicar de notas as partituras, os cadernos. Nenhum dia é igual ao outro dia. Sucedem-se, diferentes, porque a música que os habita também nunca se repete. Um dia, um rei diz ao menino: “Esta ópera é muito bela, mas tem notas a mais”. O menino, que é rei e senhor da sua música, fica sisudo e responde: “Só tem as notas que são precisas”. Aos reis, aos imperadores, aos arquiduques só se responde quando eles pedem uma resposta. Mas o menino, que também é rei, à sua maneira, responde com as palavras que acha justas e acertadas. Não precisa de coroa nem de trono. Há um muro de inveja levantado à volta do menino. Mas ele não se importa porque sabe que há uma luz que nada nem ninguém impedirá de entrar na sua música. Cobiçam-lhe a alegria, o génio, o gosto de ser menino, o riso e o prazer de ser livre. Mas ele não se importa porque sabe que há na sua música uma voz a que nenhuma outra voz se pode sobrepor, por ser única e imensa. O menino nunca abandona aqueles que ama. A música é a ponte que os liga. Constança, sua mulher, adoece e o menino, que a vida tornou crescido e atento a tudo, toca para ela, para que a febre baixe e a dor não lhe roube o sono. “Dorme, Constança, dorme porque há uma música bonita que traz sonhos nas asas e os poisa sobre as tuas pálpebras”. A doença começa a lançar um véu de tons sombrios sobre os olhos do menino, que nunca pára de tocar, nem para dormir nem para comer. O menino sente que uma grande pressa lhe magoa o peito e lhe agita os dedos. Todas as horas se tornam apenas instantes quando tem de compor. Todos os dias se tornam minutos quando tem de tocar. Uma vida inteira, mesmo longa, seria breve para toda a música que tem dentro da cabeça. Hoje um acto de ópera, amanhã um andamento de sinfonia ou de concerto, uma cantata, um divertimento. O menino sente que a febre lhe arde nos olhos e que a noite lhe adormece nos dedos. Tem pressa, cada vez mais pressa. Chegam amigos, mas não está para eles; quer estar só. Só, com a música toda que tem para escrever. Um homem visita o menino sem deixar o nome. Fala de alguém que partiu, da pena que sente, da tristeza que o verga. Quer uma música que saiba dizer tudo isso e muito mais, que diga a sombra e a mágoa. A encomenda está feita, o preço combinado: cem ducados. Ficará pronto, promete o menino, em quatro semanas. Com o Requiem, que é assim que a obra se chama, cresce, veloz, a tristeza do menino. Um pássaro vestido de névoa pousa no parapeito da janela do quarto do menino. Anuncia dias sem luz, horas magoadas e sombrias. E o menino trabalha, trabalha sempre, no desamparo da cama desfeita, da comida entornada, da febre a subir, do corpo a doer. Tem pressa, muita pressa, mas o tempo não chega para cumprir a promessa. O pássaro está pousado dentro do sono do menino a vigiar-lhe os sonhos, a seguir-lhe as ideias, a afugentar-lhe a febre com um constante bater de asas. A cabeça do menino está cheia de música. Entram e saem do quarto aqueles que ama. “Está tão doente o menino”, lamentam-se. Ele não os pode ouvir, que os seus ouvidos são conchas, búzios e casulos onde a música não cessa nunca de tocar. O menino adormece e acorda, desmaia e volta à razão. Deixou de poder distinguir a noite do dia, a sombra da luz. E a pressa, essa, nunca abranda. “Tenho o Requiem para acabar, não faltarei à promessa”. Mas falta sem querer faltar. Quando vêm buscar a obra, o menino fecha os olhos e já não está para responder, seja a quem for. É mais triste que a tristeza o dia da despedida. O menino vai deitado com tão pouca companhia: as lágrimas de quem sempre soube amá-lo, a sinfonia grave da chuva, mais a cantata do vento, mais a ópera do silêncio. Há um pássaro pousado no poleiro alto de um cedro a dizer adeus, baixinho, com um leve bater de asas. “Adeus, menino, adeus que saudades já temos de ti...” No patamar de uma nuvem está um cravo aberto, um piano com teclas de vento. O menino senta-se e toca e as estrelas em volta começam a cantar. Passa um cometa e diz: “Bonita música essa, Amadeu. Passa um meteoro e murmura: “Ensina-me também a cantar, Amadeu”. Cá em baixo, na terra, enfeita-se o silêncio com o eco de mil coros. O menino guarda a partitura e viaja sobre um raio de luz até ao planeta distante onde só a música pode ser rainha. Está um pássaro pousado nas teclas de um piano, está um pássaro a cantar enquanto a noite dorme. O menino brinca com a lua, veste casaca bordada a ouro e tem cabelos feitos com fios de prata.Voltou a ter a idade saltitante dos brinquedos e dos sonhos. O seu riso é do tamanho da alegria do mundo. Tudo em redor se cala só para o ouvir tocar, com o encantamento imenso que apenas a magia é capaz de explicar. Até já, até sempre, Amadeu!
José Jorge Letria, "Mozart, o menino mágico" Porto, Ambar, 2006

domingo, 4 de janeiro de 2009

ANIVERSARIANTE DO MÊS

Wolfgang Amadeus Mozart nasceu em Salzburg, Austria, em 27 de Janeiro de 1756 e morreu em Viena a 5 de Dezembro de 1791.

Considerado um dos melhores compositores na história da música clássica ocidental é, ainda hoje e a par de Hayden e Beethoven, um dos autores mais ouvidos mundialmente. Como poucos, escreveu em todos os géneros musicais, tendo demonstrado a sua genialidade em todos eles. O seu gosto, as suas capacidades musicais e a sua expressão artística fizeram dele o mais universal de todos os compositores de música clássica.

Para que possas apreciar a sua arte deixamos um video com uma peça musical, que, embora diferente dos teus gostos habituais, te vai certamente envolver.

Ano Internacional da Astronomia


Este ano comemora-se o Ano Internacional da Astronomia 2009, que será a celebração da astronomia, em particular, e da ciência, em geral.
Para que possas ter conhecimento das actividades já a decorrer e em preparação no nosso país para celebrar este evento mundial deixamos aqui o sítio onde encontrarás todas as informações.

Jogo do Monopólio

Para os fãs do monopólio existe uma nova versão, o BOOKOPOLY. As regras são semelhantes às do jogo original:
- Com a ajuda do dado vamos avançando para livros e comprando cada um, as rendas são cobradas de acordo com a qualidade do livro e/ou autor;
- Constroem-se livrarias se tivermos 3 livros e uma biblioteca se conseguirmos construir 3 livrarias;
- Em vez de irmos para a prisão... temos de ir ver televisão (!!!) e a companhia da água ou da electricidade foram nesta versão substituídas por géneros literários.

O jogo ainda não se vende em Portugal, mas existe na Amazon.http://www.amazon.com/gp/product/B000HET4YC?ie=UTF8&tag=biblio06-20&linkCode=as2&camp=1789&creative=9325&creativeASIN=B000HET4YC

Prémio Nacional de Literatura Juvenil Ferreira de Castro

A Associação do Prémio Nacional de literatura Juvenil Ferreira de Castro, com sede em Oliveira de Azeméis, Portugal, no âmbito das suas actividades leva a efeito mais uma edição do Prémio Nacional de Literatura Juvenil Ferreira de Castro.

Esta iniciativa é destinada aos jovens nas faixas etárias dos 12-15 anos (Escalão A) e dos 16-20 anos (Escalão B), os quais podem concorrer com trabalhos nas modalidades de prosa e poesia, contando com o Alto Patrocínio de Sua Excelência o Senhor Presidente da República, apoio do Instituto Camões, Direcção Regional da Cultura do Norte, Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas e Caixa Geral de Depósitos.

O regulamento do concurso encontra-se disponível na página electrónica da Associação: http://www.apnljfc.pt/

A Biblioteca José Ferreira Brandão, para além de te dar a conhecer este Concurso Literário, vem ainda disponiblizar o seu apoio para qualquer esclarecimento, que também poderá ser encaminhado para o endereço electrónico: apnljfc@prof20000.pt

EUROPEANA

Após quadriplicar a capacidade do servidor, a Europeana já está online. O projecto europeu junta obras de mais de mil instituições.

No total, são mais de dois milhões de livros, quadros e músicas num único site digital.

A Europeana esteve online apenas um dia, não aguentando a enorme afluência dos utilizadores (mais de dez milhões de cliques por hora). Hoje, os responsáveis pelo projecto dizem que a biblioteca está "no ar", após «temos quadriplicado a capacidade do servidor», afirma Martin Selmayr, da Comissão Europeia.

ESTAMOS EM 2009

Neste regresso à Escola, a equipa da Biblioteca José Ferreira Brandão gostaria, antes de mais, desejar a toda a comunidade educativa um excelente 2009.

O entrar num novo ano deixa-nos, ainda e sempre, na expectativa do que irá acontecer. De facto, as mudanças, a todos os níveis, têm atingido todos nós. Coisas boas, coisas menos boas, coisas más!

A este propósito, deixamo-vos com um documentário intitulado "EPIC 2014" que pretende relatar a História de 1989 a 2015... em quase 9 minutos. Criado em 2004 pelos jornalistas americanos Matt Thompson, do Star Tribune, e Robin Sloan, da emissora de TV por satélite Current, ainda agora, já em 2009, nos leva a pensar que a evolução nos pode trazer um futuro melhor ou um futuro pior sempre em função do rumo que lhe dermos.

Oxalá que cada um dos agentes desta comunidade educativa possa e saiba sempre contribuir com o seu melhor para uma futuro mais justo e mais feliz.